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As fintechs começam a incomodar os grandes bancos

O autor Carlos Pessoa é CEO da Vêneto Gestão de Recursos (foto:divulgação/Vêneto).
O autor Carlos Pessoa é CEO da Vêneto Gestão de Recursos (foto:divulgação/Vêneto).

O sistema financeiro brasileiro é conhecido por ser muito concentrado e caro. Segundo o Banco Central, os cincos maiores bancos (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander) detinham, em 2018, 84,80% do mercado de crédito brasileiro. Nas áreas de investimentos e serviços, não é diferente. Essa distorção é comprovadamente uma das maiores do mundo.

Um dos principais motivos dessa anomalia brasileira, é que o Governo Federal tem um grande déficit orçamentário e necessita anualmente de R$ 400 bilhões para financiar os juros da dívida mais o déficit primário (diferença de quanto o governo arrecada contra o quanto ele gasta). Seus maiores financiadores são os grandes bancos, uma vez que essas instituições preferem emprestar primeiro ao governo, para depois pensar em emprestar para o cidadão comum, ocasionando escassez de crédito, taxas altas e enorme seletividade para concessão do empréstimo. Além disso, há um excesso de regulação bancária, o que gera custos excessivos para se abrir e manter um banco. Devido aos altos custos, a escala é importante, quanto maior o banco, menores são as despesas por usuário adicional. Por fim, há falta de concorrência, o que pode ser exemplificado pelo fracasso de grandes instituições financeiras globais, como Citibank e HSBC, em se estabelecerem no país.

Esses fatores juntos geraram um fenômeno no mínimo curioso: a taxa básica de juros, a SELIC, caiu mais de 55% nos últimos três anos, mas os spreads bancários continuam bem próximos dos mesmos patamares anteriormente praticados, ou seja, os bancos não diminuíram as suas margens bancárias. Os grandes bancos criaram uma espécie de oligopólio, onde todos lucram e não competem, se transformando em verdadeiras máquinas de imprimir dinheiro. O lucro líquido dessas instituições foi recorde no ano de 2018. O Bradesco lucrou 16,8 bilhões de reais, o Santander 12,8, o Banco do Brasil 12,7, a Caixa Econômica Federal 10,4 e Itaú Unibanco, 25,7 bilhões. Em termos de margem bancária líquida (percentual do lucro em relação à receita), o Itaú Unibanco foi um dos mais rentáveis do mundo em 2018, atingindo incríveis 22,36%.

No ano de 2016, o Banco Central, via uma portaria chamada “Otimiza BC”, pode ter provocado uma verdadeira revolução no setor bancário. Essa nova portaria permite que se abram contas à distância, sem a necessidade de novos correntistas irem a uma agência bancária. De lá para cá, várias fintechs (startups) têm surgido em todos os setores bancários. A maioria delas oferece abertura de contas sem taxas, além de serviços, tais como cartão de crédito sem anuidade, investimentos com taxas de administração reduzida, saques sem custos em bancos 24 horas e TEDs sem tarifas.

Algumas instituições vêm se destacando nesse novo cenário. O Banco Inter já conta atualmente com mais de 2,5 milhões de correntistas e quase triplicou a sua base de clientes de 2018 para 2019. O Nubank acaba de atingir 12 milhões de correntistas, oferecendo cartões de crédito sem anuidade e garantindo uma rentabilidade de 100% do CDI do dinheiro parado em conta corrente. Nesse mesmo caminho, a rede de adquirência (máquinas de cartões de crédito e débito) Pagseguro, dona da Moderninha, espera atingir até o fim desse ano mais de 10% da participação de mercado e acaba de comprar o banco BBN para oferecer mais serviços.

Esse movimento parece ser apenas o início, uma vez que o número de bancos digitais, operadoras de cartões de crédito e débito e adquirentes não para de crescer, incomodando os grandes bancos. O Bradesco acaba de divulgar mais um plano de demissão voluntária, o segundo em dois anos, buscando enxugar a sua estrutura e cortar custos, além de lançar há pouco tempo o seu próprio banco digital, o Next. O Santander também vem diminuindo agências e lançou o Pi, seu banco digital. O Itaú, há alguns anos, comprou uma participação minoritária de uma das fintechs de investimentos mais bem-sucedidas do mundo, a Xp Investimentos. Além disso, vem fechando agências, buscando enxugar a sua estrutura e focando no atendimento digital.

Aparentemente, o oceano azul em que navegam os grandes bancos parece ter se escurecido um pouco. Ainda é muito cedo para afirmar que a dominância dos cinco grandes chegou ao fim ou ao mesmo será prejudicada, mas é certo que eles nunca estiveram tão ameaçados como agora. Sempre é bom lembrar que, de anos em anos, surgem ameaças a eles, que até o momento têm se mostrado resilientes e com dinamismo para se ajustar às ameaças, sempre se reinventando.

Quem acaba se beneficiando de tudo isso é o cidadão comum. Com a competição que se desenha no futuro, devemos ver menores taxas, mais eficiência e ofertas de produtos, e um ambiente mais pró-cliente

Ícaro Ambrósio
Vou vivendo como sou e vou sendo como posso: jornalista e diretor do site O Contorno de BH.

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