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Exposição da Casa Fiat refaz caminhos de imigrantes italianos

Foto: divulgação.
Foto: divulgação.

Celebrar as possibilidades do presente é, em grande medida, reconhecer a paixão, o afeto, a coragem e a inovação daqueles que nos precederam. Impossível contar a formação da persona brasileira – e, também, argentina – nos últimos 120 anos sem falar dos imigrantes italianos que, repletos de sonhos, aportaram em massa na América Latina, para ressignificar o próprio sentido de identidade, além de contribuir com a formação de comunidades em seus novos países. A forma como se deram os fluxos de migração da Itália, bem como sua influência na vida cotidiana de brasileiros e argentinos, são tema da exposição “Percorsi Italiani – 120 anos de história na Casa Fiat de Cultura”, em cartaz de 26 de novembro de 2019 a 1º de março de 2020, em Belo Horizonte (MG). A entrada é gratuita.

Ao todo, serão exibidas mais de 100 imagens e fotografias históricas provenientes de acervos do Museu da Imigração (Arquivo Público de São Paulo), do Museu Histórico Abílio Barreto, do Arquivo Público Mineiro, do Centro Storico FIAT e da FCA Group Argentina. Como numa viagem pelo tempo, cada cena permite que sejam revividos importantes marcos, costumes, objetos, instituições, eventos, estéticas e estilos, referentes às mais diversas épocas. De modo único, a exposição propõe, afinal, que os visitantes experimentem o forte entrelaçamento entre as tradições italianas, a Fiat e a vida de uma cidade – de sua fundação aos primeiros vestígios de modernização.

“Nessa exposição, contamos a história da Fiat e de milhares de italianos que resolveram deixar sua terra natal em busca de uma nova vida nas Américas. Tomamos a liberdade de usar um termo italiano – ‘Percorsi Italiani’ – para descrever esse percurso repleto de idas e vindas que nos fazem reviver a mistura das culturas brasileira, argentina e italiana e as muitas paixões comuns que nós temos – como a arte, a culinária, o futebol e automóveis”, destaca o presidente da Casa Fiat de Cultura, Fernão Silveira.

Fiat no Brasil
Após o processo de unificação da Itália, na segunda metade do século XIX, o país passou por transformações sociais e econômicas – reflexo da guerra e do fortalecimento da industrialização –, que deram início ao êxodo rural: movimento de pessoas que saíam dos campos em busca de oportunidades nas cidades. Sem empregos para todos, os italianos viram-se obrigados a procurar outras alternativas. Do outro lado do oceano, os países americanos passaram a ser vistos como opção para mudar de vida, superar a pobreza, e dar início a um novo capítulo na própria história.

Unidas pelo desejo de desafiar o impossível, famílias inteiras partiam da Itália com a fé de que, por meio de trabalho árduo, e da diária superação de obstáculos, haveriam de construir novos horizontes. Na década de 1900, América do Sul, Argentina e Brasil começaram a receber e a incentivar a vinda de italianos. Cerca de 11 milhões de pessoas desembarcaram no continente, dos quais 38% vinham da Itália. Com o desejo comum de “fazer a América”, eles encontraram muito mais do que emprego por aqui, pois perceberam a oportunidade de recomeçar.

A história da Fiat está intimamente ligada aos movimentos de migração italiana. Fundada há 120 anos, a empresa marcou o cotidiano das pessoas e ajudou a concretizar o percurso italiano até a Argentina e o Brasil, sendo, também, uma imigrante. A fábrica, mundialmente conhecida pela produção de automóveis, já produziu modelos de trem, como o Pendolino e a Littorina 1934, e motores para navios e aviões de caça.

Em Minas Gerais, a história da Fiat foi oficializada em 14 de março de 1973. Na data, o presidente da Fiat SpA, Giovanni Agnelli, e o governador de Minas Gerais, Rondon Pacheco, assinaram o “Acordo de Comunhão de Interesses entre Fiat e Governo do Estado”. O antigo Palácio dos Despachos, que hoje abriga a sede da Casa Fiat de Cultura, foi cenário desse momento histórico. Três anos depois, em julho de 1976, a fábrica foi inaugurada em Betim (MG).

No céu, na terra e no mar
O deslocamento dos imigrantes europeus para as Américas não aconteceu apenas de um jeito. Para encontrar seu destino, eles seguiam por terra, céu e mar, ávidos por estabelecer o sonho da vida nova, em terra repleta de promessas. Nos novos territórios de desafios e moradia, a Fiat transformou-se em parceira cotidiana das famílias italianas, não apenas como ambiente de vocação e trabalho, mas, principalmente, como referência diária a seu país natal.

No início dos trabalhos no Brasil, a fábrica da empresa produzia carros e motores para navio. Nos anos seguintes, passou a também desenvolver motores para submarinos, aviões, e, até mesmo, aeronaves completas, além de geladeiras e máquinas de lavar.

Na escadaria que conecta o hall ao mezanino, estará estampada uma foto de navio – importante meio de transporte dos imigrantes, cenário de rupturas e recomeços. O percurso fica completo com a exibição dos aeromodelos Republic P-47 Thunderbolt, conhecido como “Jug”, e Vought F4U Corsair, que representam a atuação da Fiat na indústria de aviões.

FIAT 147
Com espírito pioneiro, o primeiro modelo da Fiat fabricado no Brasil foi o 147. Primeiro automóvel do mundo movido a álcool a ser produzido em série, ele ganhou o apelido de “cachacinha” e se tornou um verdadeiro símbolo de tecnologia e inovação. O lançamento foi realizado em Belo Horizonte, em julho de 1979, no Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão. O modelo, ainda inédito, inovava ao usar etanol da cana-de-açúcar – então chamado simplesmente de “álcool” – para superar a crise do petróleo.

A mostra “Percosi Italiani” contará com um exemplar original do Fiat 147. O carro pertence ao Ministério da Fazenda – que se tornou Ministério da Economia – e ainda carrega a sigla MF estampada em sua porta, como forma de identificá-lo como patrimônio do governo. De cor preta e placa FO-0292, o veículo, hoje mantido e conservado pela equipe de Engenharia da FCA em Betim, também será uma plataforma de memórias, com a projeção em seu para-brisas de filmes da inauguração da Fiat e da primeira propaganda do Fiat 147.

Ícaro Ambrósio
Vou vivendo como sou e vou sendo como posso: jornalista e diretor do site O Contorno de BH.

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