Um dos primeiros desfiles do Então Brilha
Foto: Paulo H de Oliveira

 

O ano é 2010, o mês fevereiro. Um grupo de 12 amigos belo-horizontinos foi passar o Carnaval no Rio de Janeiro. Sem nenhuma pretensão, esse grupo decidiu criar um bloco entre eles para poder aproveitar a folia na rua e cada um deles saiu tocando um instrumento de percussão que tinha. Era tudo brincadeira! Um deles ainda decidiu colocar aparelhagem de som em uma bicicleta e enfim saíram pelas ruas cariocas.

O carnaval passou, o verão acabou e 2010 chegou ao fim. Novamente, em 2011, ao embalo de um novo carnaval, esse mesmo grupo decidiu repetir a brincadeira da bicicleta guiando o grupo de percussionistas, desta vez pela rua Guaicurus. Mal sabiam eles que desse envolvimento nasceria um dos maiores blocos do carnaval de Belo Horizonte, o Então, Brilha.

Em 2020, já do alto de seu trio elétrico e acompanhado por uma percussão numerosa, o Então, Brilha comemora 10 anos e lembra deste primórdio, saudando  os 12 amigos com a alegoria “O louco na bicicleta e os 11 cavaleiros do apocalipse”. A ideia do tema é baseada na carta do tarot “O louco” e na bicicleta sonorizada, construída por Glauco Dias e Leandro César, que deu o pontapé para a folia.

Foi o Rafael Gonçalves, fundador da ONG Social Casa de Gentil, em Raposos, quem deu nome e ideia do Bloco. Aos poucos, nomes nomes adentraram e estabeleceram o formato que conhecemos hoje. Em 2012, Di Souza foi convidado para montar e reger a bateria do bloco, quando então os ritmos afro-baianos foram consolidados. Já em 2014, Rubens Aredes e Michelle Andreazzi assumiram os vocais ao lado do Glauco Dia. Também foi nesse ano que nasceu a tria elétrica* Estrela da Manhã. A partir de 2015, os músicos montam a banda do bloco e se apresentam unidos.

Vejam como foi o cortejo do Então, Brilha em 2019:

Brilho desde sempre e para sempre
Na comemoração dos 10 anos, muitas novidades hão de vir, mas a principal delas é a proposta de uma reflexão sobre a relação da humanidade com tempo e a história. Em seu cortejo  especial de 10 anos, o grupo dará o recado de que não aceitam um futuro sombrio que os donos do poder estão construindo pra gente.

“Infelizmente vivemos um tempo presente de autoritarismo, repressão, aumento da desigualdade social, retirada de direitos sociais, desastres ambientais de magnitude nunca vista, ampliação da violência contra LGBTQI+’s, mulheres e negros. O genocídio da população pobre e negra nas cidades brasileiras é alarmante. Estamos à beira de uma terrível guerra no oriente, sem falar de guerras que se alastram há anos como na Síria. O Brasil vive uma guerra social com o índice de mortes em conflitos nas favelas maior que em conflitos entre Israel e Palestina”, esclarece o vocalista Rubens Aredes.

A bateria afiada do Então Brilha em 2018 (foto: Rafaela Mansur).

Para Rubens, esse presente mostra um possível futuro sem brilho para humanidade e o planeta. O músico acredita que não deveria ser esse o caminho à seguir. Afinal, como o nome do bloco parte do poema “Gente é pra Brilhar”, escrito por Maiakóvsky, e é atrás de brilho que o bloco vai.

“Nós queremos um futuro de justiça social, igualdade, liberdade e respeito à diversidade e à natureza, ou seja, queremos um futuro onde a humanidade brilhe em todo o seu potencial e vamos afirmar isso no nosso cortejo. Queremos que as pessoas se mobilizem pela construção desse futuro humano brilhante”, finaliza Rubens.

Em 2020
O bloco coloca seu trio na rua na manhã de sábado (22) e concentra na rua Guaicurus, em frente ao Hotel Brilhante, como em outras edições. Inclusive, o bloco tem uma afeição pelas prostitutas que trabalham nessa região. Para eles, esse é um momento de convida-las ao cortejo e dar a elas voz, num sistema de inclusão.

A largada é prevista para 5h e a canção que vai embalar o cortejo é “Oração ao tempo”, de Caetano Veloso. A partir dessa música, as temporalidades estarão definidas ao longo de todo o cortejo que encerrará na Praça da Estação por volta do meio dia. O repertório ainda coube outros clássicos do axé, do rock, do funk e do samba.

A Ala de dança, coreografada por Douglas Gonzales, representará a primavera, o nascer do dia e a esperança de transformação. A tria elétrica*, representará o outono e o inverno e com sua estrutura metálica fria, e também representará o futuro decorada como uma “espaçomáquina” do tempo. A bateria trará o verão e o passado com roupas douradas repletas de lantejoulas, representando o sol – tido como o maior símbolo do Então, Brilha. A construção dos figurinos ficou encargo da artista Camila Buzelin.

A força delas

O gênero feminino tem uma aceitação enorme entre os representantes do bloco. Nota-se pelo simples fato de eles chamarem o trio elétrico de tria elétrica simplesmente por escolha própria.  Talvez porque o seu expoente está concentrado em uma mulher de fibra, que usa sua voz para grandes feitos: Michelle Andrazzi.

A cantora a frente do Então, Brilha traz sempre em seu cortejo ideais e discursos empoderados que valorizam a força da mulher na sociedade e buscam pela visão de igualdade de gênero. Um exemplo foi quando Michelle, de cima do trio, sacou o microfone e disse para mais de 200 mil pessoas que “a gente quer ser chupada gostoso”, referindo-se ao desprezo que algumas mulheres passam em relações sexuais. A luta de música também inclui o assédio.

“Como no carnaval as pessoas estão abertas e conectadas através da alegria a gente aproveita para ensinar algumas regrinhas de conduta em relação ao assédio, por exemplo numa paquera não pode puxar o cabelo, beijar a força, tocar sem consentimento e transar com menina que está desacordada, mesmo que ela já tenha te beijado. Mas como estamos na festa da carne é bom falar não só o que não deve ser feito, mas o que pode e deve ser feito como por exemplo o que é o clitóris da mulher e pra que ele serve. Como foi o caso do desfile de 2018 que eu  falei do prazer feminino pra uma multidão”, contou a cantora.

A bateria
A bateria é de longo o estereótipo de qualquer bloco. No Então, Brilha, quem comanda o grupo de percussionistas é o maestro Di Souza. “Reger bateria é uma emoção muito grande. Sobretudo uma relação de confiança e afeto. Eu acho que isso difere muito o nosso carnaval de Belo Horizonte de outros carnavais, onde a relação de mestre de bateria e batuqueiro se dá com outras tonalidades”, comenta Di.

 

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O @blococirculado vai pra rua no próximo domingo! Às 15h, no Bairro Floresta. Aproveita e segue no insta. #sómoments

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Mais de 100 músicos irão incorporar a bateria do Então, Brilha no desfile de 2020. Para reger tanta gene, Di deixa de lado o aspecto de turrão, muitas vezes emplacado por outros profissionais, e trabalha o afeto. Além do carinho, também existe a técnica, que é o fator que possibilita pessoas que não estudaram música a se apresentaram com seu instrumento.

“E eu acho que em Belo Horizonte a gente conseguiu reinventar o lugar do maestro. Eu falo muito em regência de afeto, é o que a gente faz, é o que a gente está construindo. E tem a ver com essa relação mais próxima, empática, solidária, generosa, do maestro com aquela pessoa que chegou no último ensaio e vai tocar na bateria”, confirma Di Souza.

Foi o próprio Di Souza quem criou sua técnica para comandar sua bateria. A sistemática vem sendo aprofundada desde 2011. Aliás, o músico apresenta alguns cursos de regência carnavalesca e desenvolve os movimentos mais apreciados pela regência carnavalesca belo-horizontina, diferindo a nossa regência de outras cidades.

“Não existe um arranjo estabelecido onde em determinado momento da música a bateria já sabe o que vai fazer, e sim existe um conjunto de sinais onde cada sinal em cada contexto significa uma coisa, dependendo do estilo musical do bloco. Mas existem aqueles sinais que por serem muito conhecidos a pessoa já faz em qualquer bloco, estes estão sendo alimentados há muito. Durante os ensaios a bateria aprende esses sinais. E é muito importante falar da formação da bateria, dependendo de como o maestro a dispõe é o que vai facilitar o entendimento desses sinais”, esclarece.

Veja a força da bateria do Então, Brilha, em 2016:

O hino
Um dos momentos mais marcantes de todo o carnaval de Belo Horizonte é quando quando as guitarras do Então, Brilha aguçam, os fogos começam a subir, a bateria silencia e os cantores puxam o coro: Ô, ôôô, aaa. Então Brilha, brilha. É de arrepiar.

Esse é o momento do hino do bloco, já considerado, em 2017, pelo Prêmio BH Folia, como a música do carnaval. A composição é de Irene Bertachini, Glauco Dias e Geison Almeida. Os três, fundadores do bloco. A canção original tem voz de Rubens Aredes e Michelle Andreazzi.

“Eu estava montando meu primeiro show solo em 2011, o Nave Fluorescente com direção da Titane e ainda não conhecia o bloco. Cheguei no estúdio, a casa azul, para ensaiar meu show solo e eles estavam lá gravando o hino para um concurso do Tutti Maravilha. Eles então me pediram para gravar a voz do hino. Rapidinho decorei a música e fiz assim a primeira gravação do hino, sem conhecer o bloco direito ainda e me apaixonei. Desde então passei a frequentar os ensaios e cortejos do bloco sem nenhuma pretensão e sempre me emocionando muito, até que veio o convite para me tornar o cantor do bloco”, conta Rubens.

Assista ao clipe oficial do hino

Amor ao carnaval
“É muito bacana ver um carnaval que a gente ajudou a reconstruir crescer e agregar cada vez mais pessoas. Nosso desejo é que cada vez mais pessoas se conectem ao ideal de que: Gente é pra Brilhar! Em todas as esferas da existência“, conta Michelle. 

E é desse amor que grandes experiências vem surgindo aos poucos. Um exemplo foi o de um poster no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, o maior do Brasil. Uma vez, o terminal decidiu enfatizar a potência do carnaval brasileiro e a imagem usada para ilustrar o poster foi uma foto do desfile do Então, Brilha, em Belo Horizonte.

“Ser cantor do Então Brilha foi o maior presente que o universo me deu até hoje. Eu encaro essa missão como uma espécie de sacerdócio. Temos que lidar com uma diversidade muito grande de energias vindas das mais diversas pessoas e emanar muita energia de alegria, paz, amor e felicidade pra todas elas”, comemora Rubens.

Além do carnaval
A comunhão e o amor pelo carnaval é um ponto destacado entre os participantes do Então Brilha. Tanto que quando a maior festa popular do mundo acaba, o bloco continua seu trabalho de propagação à cultura popular através da Escola Brilhante de Artes que atua em comunidades periféricas. Em 2019, o bloco disse que o projeto não avançou por falta de apoio do poder público, mas ainda assim, o objetivo de lecionar a percussão e os embalos do carnaval continuam.

Veja mais sobre o projeto nesse vídeo:

Além disso banda do bloco que faz shows durante o ano inteiro, ajudando a propagar o lema de “gente é pra brilhar” e oferecendo um pouquinho da experiência do cortejo de carnaval fora dele. Promovemos debates sobre a luta contra as opressões, apoiamos movimentos sociais. Cada um dos integrantes também participa de algum projeto solo.

Rubens Aredes, por exemplo, atua com a Escola de canto e consciência corporal Rubens Aredes, que ajuda a formar muitos os cantores. Ainda em 2020, o cantor planeja fundar a Cia A amadora de teatro musical e pretende contar com a participação de membros do naipe de vozes do Então Brilha. Di Souza, também trabalha com o bloco de sertanejo É o Amô. Michelle Andreazzi tem sua consolidada carreira solo. E outros os outros músicos e percussionistas continuam com suas vidas em seus respectivos empregos, mas sempre brilhando.

 

*O bloco Então, Brilha opta por chamar o trio elétrico de tria elétrico.

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