O autor Dr. Reinaldo Arruda Pereira é professor da Faculdade Batista de Minas Gerais e doutor em Ciências da Religião (foto: arquivo pesoal).

O filósofo alemão Nietzsche (1844-1900), tinha razão: a “domesticação” do ser humano acontece aceleradamente nas sociedades ocidentais. Em outras palavras, o ser humano se vê enfraquecido, diminuído e terrivelmente vulnerável. Com o novo coronavírus não dá para pensar diferentemente, pois a possibilidade de contágio de um grande número pessoas no mundo é grande. Quem imaginava que viveríamos a pandemia oriunda do novo coronavírus em pleno século XXI?

Neste cenário e contexto, que é mundial e local, universal e particular, estamos muito preocupados. Claro, com o novo coronavírus, mas também com a ética, ou melhor, com a falta de ética, que em nossa sociedade é um item descartável, na maioria das vezes. Até nos momentos de extrema insegurança e medo como o que vivemos nestes dias, a ética é jogada no lixo.

Com a pandemia do COVID-19, a ética, mais uma vez, está ameaçada de perder sua razão de ser (Cortina, 2010). Assim, é possível testemunharmos não só a morte de pessoas conhecidas, próximas e queridas, mas também a “morte da ética”. O que é certo, no entanto, a respeito do novo coronavírus e da falta de ética são o estrago e o aniquilamento que causam.

O novo coranavírus é incompatível com a vida. Mas, a falta de ética também o é. Se a pandemia impede a proximidade, o aperto de mão, o abraço e o aconchego, a ética é usada para legitimar o isolamento e o afastamento, tanto quanto a exacerbação do individualismo. De certa forma, a “carceragem” chegou para todos nós.

Quem diria que em pleno século XXI, o “querer-viver” chegaria a este ponto – isolar-se, afastar-se, adotando uma cidadania específica em que impera o regime fechado, em nossa própria casa. Estas coisas nos fazem lembrar Sartre: “o homem é um “ser-para-si”, pois, nada mais é do que o seu próprio projeto. Em nosso tempo, está cada vez mais difícil diferenciar o ser humano das coisas. A bem da verdade, o isolamento e a reclusão em nossa casa têm a ver com o bem maior: o cuidado da saúde e a preservação da vida.

Sobre o novo coronavírus tem-se uma suspeita: o vírus é “hipermoderno” para usar a expressão do francês Lipovetsky . Considera-se o novo coronavírus “hipermoderno” porque provoca um processo desestabilização na economia global, insegurança política, volatilidade das moedas e ainda o esvaziamento das utopias.

O coronavírus é “hipermoderno” porque é sutil e rápido, sua transmissão é veloz e não respeita as fragilidades humanas (doenças respiratórias e cardiovasculares, diabetes e idade avançada). Provoca incertezas, afasta as pessoas, propaga o medo do outro, tanto quanto a insolidariedade social, que culmina no “salve-se quem puder”. Além disso, o novo coronavírus identicamente aos tempos “hipermodernos”, deixa um vazio existencial e ético.

Por falar no “salve-se quem puder”, nesta época de COVID-19, o que dizer das nossas idas e vindas aos supermercados com o carrinho cheio de mercadorias? Precaução? Planejamento? Medo? Pânico? Desespero? Consumismo?

Na verdade, é tudo isso e um pouco mais, pois, perdemos a noção daquilo que a mobilização ao consumo pode nos causar. Por um lado, abala estoques e reflete em alta de preços. Por outro, a perda do “espírito” de coletividade, partilha, espera e esperança. Diante disso, temos, hoje, não só o perigo do novo coronavírus, mas também da escassez de gêneros alimentícios.

Em meio à crise provocada pelo avanço da pandemia oriunda do COVID-19, e pelos comportamentos citados acima, a ética não pode faltar. Contudo, para este tempo, que é uma época de medo, incerteza, descrença e tamanha vulnerabilidade, nossa ética não pode ser cínica e nem ter um caráter personalístico-individualista.

A ética cínica, cuja natureza é personalística, se manifesta numa conduta de desrespeito pelos valores humano-sociais e cristãos, uma vez que é comandada pela inautenticidade, impostura, hipocrisia e cinismo. Essa ética focaliza as vantagens e benefícios próprios, sem se importar com os outros, com o próximo, pois o que importa é cuidar de si mesmo. O caminho para negar a alteridade está aberto.

O novo coronavírus veio para alertar a humanidade e cada um de nós. Domesticar o ser humano, reificar a vida e eternizar o ganho e o lucro podem sinalizar não somente para a falta de ética, mas o esgotamento da vida e de tudo que lhe é pertinente. Afinal, em tempo de pandemia, o que importa muito mais é a existência e muito menos a vida.

No contexto e no cenário atual, é urgente resgatarmos a ética do caráter e da integridade. Contudo, como afirmou Drucker (1985), “…o caráter e a integridade, por si só, nada realizam. Mas, sua ausência aniquila tudo o mais”.

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