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Alguns pais da atualidade foram educados com uma criação autoritária, baseada em altas exigências e pouca sensibilidade. Hoje em dia, eles têm os próprios filhos, querem agir de uma maneira diferente, tendo a conexão e o respeito como pilares.

Mas, nesse momento, descobrem que não sabem como dar algo que não receberam.  Quando tornados pais, é comum repetições dos padrões da própria educação. Afinal, isso é tudo o que conhecemos. No entanto, se haver a consciência de estabelecer um vínculo mais saudável e sólido com os filhos, o caminho começa pelas emoções deles.

Nesse diálogo fica claro que os pais precisam de ajuda para entender, controlar e dar significado as emoções dos filhos. Para educar, às vezes é necessário aprender, e isso é totalmente legítimo. Por isso, conversamos com a psicóloga Angélica Paiva, especialista em educação infantil, para tentar entender o reflexo da emoção das crianças:

Qual a importância de validar as emoções nas crianças?
Primeiramente, precisamos entender que as emoções mostram-se de forma espontânea e são parte integral do eu de cada pessoa. As emoções são “inatas” e estão presentes desde o nascimento do ser humano, o que permite que desde cedo as crianças reajam com uma certa emoção diante de um certo estímulo. Para validar as emoções da criança precisamos transmitir a ela nossa escuta, amor e apoio. Com uma comunicação assertiva a criança passará a entender que as emoções são uma reação normal e que ela tem o direito de senti-la. É relevante ainda que ela entenda que todas as emoções possuem um papel fundamental nas nossas vidas, comunicando as nossas necessidades ou motivando a ação. Sendo assim, é importante ainda saber reconhecer as emoções e perceber como cada uma interfere nas ações do dia a dia e, assim, lidar com elas de maneira satisfatória. Validar as emoções da criança é de fundamental importância, uma vez que as experiências derivadas dessa fase podem influenciar no bem-estar físico, emocional e cognitivo dessa criança e consequentemente, poderá refletir em toda sua trajetória de vida.

Como são trabalhadas as emoções de crianças?
Uma das formas de trabalhar as emoções nas crianças é através da Educação Emocional que desenvolve de forma lúdica a percepção das emoções, o reconhecimento, a nomeação e em um segundo momento possibilita que a criança avalie a intensidade dessa emoção para aprender a lidar com ela. Desse modo, a Educação emocional é um processo educativo direcionado a conhecer, identificar as emoções, nomear, reconhecer, prestar atenção no que elas falam sobre nós e entender o que elas querem transmitir de informação. É de suma importância trabalhar as emoções como estratégia de saúde mental infantil, além do treino e desenvolvimento de comunicação e expressão assertiva das emoções com as crianças, principalmente nos tempos atuais. Pois, quando praticarmos a educação emocional estamos prevenindo e promovendo saúde mental. Todos nós sentimos raiva, medo, nojo, alegria, tristeza… e ao trabalhar a educação emocional com as crianças elas poderão administrar essas emoções e direcioná-las para ações adequadamente saudáveis.

A psicóloga Angélica Paiva é especialista na educação infantil (foto: arquivo pessoal).

Quais os sintomas de uma criança que passou por algum trauma e apresenta algum tipo de bloqueio emocional?
A desregulação emocional pode se apresentar tanto como aumento excessivo das emoções, quanto inativação excessiva das emoções. O bloqueio emocional é uma barreira que impossibilita a interação, interpretação e expressão das emoções no cotidiano, podendo ser um mecanismo de defesa inconsciente do sujeito. Sendo assim, a partir de uma experiência dolorosa surgem as memórias traumáticas e os bloqueios emocionais que podem acarretar diversos sintomas nas crianças, dentre eles: perca do sono, terror noturno, choro excessivo, mudança frequente de humor, apatia, dificuldade de concentração e aprendizagem, dentre outros. Em cada criança os sintomas se manifestam de uma determinada forma e intensidade, por isso é imprescindível que os pais ou cuidadores procurem a avaliação de uma psicóloga.

É possível tratar esse bloqueio? Como?
Sim, através da psicoterapia infantil, que se conceitua como um tratamento especializado para a abordagem das dificuldades emocionais, sociais e/ou comportamentais da criança. Durante a psicoterapia, as crianças recebem apoio emocional e, de forma lúdica, são orientadas pela psicóloga a resolver questões internas, problemas com pessoas do seu convívio e a compreender as suas emoções e os seus conflitos, além de aprender a tentar novas soluções para os desafios do cotidiano. É importante salientar que podemos ainda prevenir e promover saúde e educação emocional nas crianças através de atividades lúdicas, como: a oficina das emoções, diário das emoções, livros e jogos infantis sobre sentimentos e emoções.

Emoções estão ligadas a habilidades? (Exemplo, uma criança que tenha mais empatia tem a possibilidade de desenvolver melhor as funções X e Y).
As emoções são responsáveis por fazer com que possamos tomar atitudes, nos adaptarmos a mudanças e nos proteger. As emoções podem influenciar nas habilidades sociais, podendo contribuir ou não para as relações harmoniosas na escola, na vida familiar e social. Como exemplo, uma criança que já desenvolveu a empatia pode ter habilidades sociais de cooperação, respeito mútuo, dentre outras. Quando estimuladas adequadamente desde a infância a chance de êxito é maior. Por estarem em desenvolvimento emocional as crianças precisam de apoio para que possam se conhecer emocionalmente, com o objetivo de saber entender e expressar suas emoções de maneira construtiva e assim se tornar adultos saudáveis emocionalmente.

Como trabalhar a empatia de uma criança?
Sabemos que a importância das emoções consiste em manifestar o que estamos sentindo naquele momento, tornando-se guias de aprendizado e autoconhecimento. Ajudam-nos ainda a avaliar as alternativas para agir e revelam nossas necessidades. Além disso, as emoções ajudam a nos conectar conosco e com os outros, possibilitando a empatia entre as pessoas. Através de atividades as crianças podem aprender a empatia de forma leve, divertida, lúdica e interativa. Podemos trabalhar a empatia por meio de atividades em grupos, rodas de conversas, dinâmicas e dramatizações com um tema especifico, que possibilitam a participação ativa das crianças. Com uma escuta adequada, atentos, olhando nos olhos, acolhendo o outro, através de um clima lúdico em que múltiplas versões sejam expressadas a criança pode sentir o que a outra criança sentiu e se colocar no lugar do outro, desenvolvendo desse modo a empatia.

Situações singulares, como a pandemia de Covid-19, podem influenciar nas emoções das crianças?
Apesar da capacidade humana de se adaptar as transformações, as mudanças e o surgimento de tantas adversidades em pouco tempo podem gerar preocupações e influenciar no manejo das emoções, principalmente na infância. Nesse momento, é necessário conversar com as crianças para orientá-las sobre as emoções e educá-las a terem bons hábitos de higiene para evitar o vírus, por exemplo, mas sem passar medo, transferindo calma e segurança. Os pais precisam ficar atentos ao comportamento dos filhos e como eles têm refletido sua saúde emocional.

Após esse período em casa, é preciso de algum acompanhamento para evitar transtorno, trauma ou desapego quando a rotina estiver normalizada?
Atualmente, a importância em trabalhar a educação emocional e o bem-estar psicológico das crianças, principalmente, e de suas famílias tem sido cada vez mais presente. Ao trabalhar as emoções desde cedo, as crianças aprendem a resolver conflitos com mais facilidade e com menos sofrimento. Sendo assim, é importante observar as queixas individuais de cada criança e sua adaptação no contexto social após esse período. É necessário que os pais e cuidadores estejam sempre atentos a mudanças de humor e de comportamento nas crianças, se necessário procure a avaliação de uma psicóloga.

Quais hábitos são importantes para os pais adorarem em casa a fim de fomentarem melhores emoções nas crianças?
É importante salientar que quando os pais sentem e lidam bem com cada uma das emoções eles podem ajudar a criança a viver e a lidar também. Então, busque sempre conhecer suas emoções, para poder educar emocionalmente seus filhos, aprenda a identificar os desconfortos e os incômodos que você sente. Assim, poderá auxiliar no desenvolvimento emocional das crianças de maneira adequada e saudável. É necessário estar presente e aprender a ouvir, o momento da escuta é importantíssimo, pois possibilita troca, aprendizado, auxilio e acolhimento. A criança não fala apenas com palavras, ela fala com os comportamentos, choros, risos, as vezes com o silêncio, sendo agressivo, medroso, dentre outas inúmeras possibilidades de expressões. Precisamos compreender que uma criança não é agressiva, por exemplo, ela pode estar agressiva, sendo que este estado em que se encontra pede escuta e auxilio. É preciso escutar, aprender a ouvir com o coração e estar disponível para aprender com os momentos que vivemos. Muitas vezes não damos a devida importância a fala da criança e perdemos a oportunidade de ouvir a situação vivida por ela. Quando damos a possibilidade de ouvir a versão da criança podemos ajudá-la a entender a situação e criamos possibilidades para ela resolver o conflito e aprender com esse desafio. Quando a criança tem momentos de escuta e troca de conhecimentos com os adultos através da conversa sem julgamentos ela percebe ideias, sua própria fala, aprofunda suas reflexões, resolve seus conflitos, faz novas conexões, recebe acolhimento e o mais importante percebe e aprende como manejar suas emoções.

Depressão, síndrome do pânico e outras condições de doentias, como evitar?
Algumas pessoas têm dificuldades e se sentem incapazes de lidar com as emoções, se deixam dominar, desesperam ou paralisam e acabam tendo um comportamento pouco assertivo. Problemas como agressividade, impulsividade, baixa tolerância à frustração são alguns aspectos que podem causar problemas emocionais na criança e trazer problemas na vida adulta como, por exemplo, transtornos de ansiedade, síndrome do pânico, depressão, dentre outros. Para evitar é necessário prevenir e promover saúde física e emocional através de uma alimentação saudável, exercícios físicos, boa rotina de sono, bons relacionamentos interpessoais, além de trabalhar o manejo das emoções e a busca constantemente pelo autocuidado e pelo autoconhecimento.