Sorvete sem açúcar, ou quase?
Crédito: Banco de dados do Canva
Aumento de casos de doenças como diabetes e obesidade reacende debate sobre consumo saudável e impacta mercado de gelados
Nos últimos anos houve um aumento acentuado de casos de doenças ligadas ao consumo de açúcar, como diabetes e obesidade. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 10% da população nacional, pouco mais de 20 milhões de pessoas, sofre com a diabetes. Já a obesidade afeta cerca de 40 milhões de brasileiros. Um estudo realizado pela Fiocruz Brasília revelou ainda que, até 2044, cerca de metade dos adultos brasileiros devem viver com sobrepeso ou obesidade.
Diante desses dados há uma procura maior por produtos alimentícios que prometem ser mais saudáveis, especialmente no setor de gelados. No caso dos sorvetes, os mais requisitados são os sem açúcares, que costumam ser menos calóricos e oferecem menos riscos à saúde.
Entretanto, de acordo com Mirko Stortini, mestre gelatiere e fundador da Gelato Academy, primeira escola italiana de gelatos do país, é preciso ficar atento a esses produtos, que muitas vezes não são o que parecem ser. Ele afirma que, nos últimos anos, influenciadores têm divulgados cada vez mais vídeos falando sobre o tema, e por vezes publicando inverdades.
“Vejo que nos últimos anos as pessoas têm acreditado no que esses vídeos dizem, sem nenhuma informação ou apresentação de fundamentos científicos. É necessário que as pessoas entendam primeiro a diferença (entre os sorvetes) e que o profissional que está falando tenha real conhecimento sobre o assunto”, pontua.
Para o mestre gelatiere a principal fonte de desinformação está na propagação da ideia de sorvete sem açúcar. Em teoria um produto sem açúcar é aquele que não contém açúcar em sua composição, nem adicionado nem naturalmente presente.
Esta definição está presente na resolução RDC n. 54/2012, que afirma que os produtos considerados sem açúcar devem conter, no máximo, 0,5 gramas de açúcares por 100 gramas ou 100 ml (por porção). A legislação considera ainda que estes produtos não podem conter adição de açúcar ou ingredientes que contenham açúcar adicionado.
Sorvete sem açúcar, ou quase?
Mas afinal, existe sorvete sem açúcar? A resposta correta é não exatamente, uma vez que as frutas e outros ingredientes usados em sua composição, como o leite, possuem açúcar natural. Ele explica que, na maioria dos casos, os sorvetes sem açúcar são aqueles que não recebem nenhum tipo de açúcar adicionado durante o processo de fabricação.
“A verdade é que sem o açúcar, especialmente no mundo do sorvete, praticamente não existe, exceto em algumas raras exceções. Da mesma forma, fazer sorvete sem adição de açúcar não é nada fácil, especialmente para quem não tem conhecimento sobre o produto”, afirma.
Ele alerta que os produtos divulgados como sem açúcar ou sem adição de açúcar utilizam como adoçantes xarope de tâmara ou outros ingredientes como melaço, mel de cacau, maçã em pó e, nos piores casos, frutose – um tipo de açúcar simples (monossacarídeo) encontrado naturalmente em frutas, mel e alguns vegetais.
Quando consumida em grandes quantidades sem moderação, a frutose natural ou a industrializada podem aumentar o risco de obesidade e de diabetes tipo 2, causar sobrecarga no fígado, aumentar os níveis de colesterol LDL (ruim) e triglicerídeos, além de causar danos ao intestino.
Mirko informa que a melhor escolha para quem quer continuar aproveitando a sobremesa sem culpa ou medo é buscar marcas e locais que ofereçam opções mais naturais.
“Um sorvete artesanal, que usa ingredientes naturais, quase sempre terá menos açúcar do que as opções industrializadas. Outra dica é olhar o rótulo e a composição dos produtos. Quanto menor o número de ingredientes, mais saudável ele provavelmente será”, finaliza, destacando a quantidade de conservantes e outras substâncias químicas presente nas opções industrializadas.