BH corre risco de perder o mais novo cinema independente. Venha nos visitar!
Após realizar mais de 90 sessões gratuitas e exibir mais de 160 filmes desde a inauguração, espaço convida a população a contribuir para a continuidade de sua programação gratuita
Quando um cinema de rua fecha, a cidade perde mais do que uma sala de exibição. Perde um lugar de encontro, de convivência e de circulação de histórias. É para que isso não aconteça que o Cine Graciano, criado e mantido pela Associação Filme de Rua, lança uma campanha de financiamento coletivo para garantir a continuidade das atividades desenvolvidas na Lagoinha, em Belo Horizonte.
Inaugurado em novembro de 2025, o Cine Graciano ocupa um imóvel construído em 1925, na Rua Itapecerica, tombado pelo patrimônio histórico municipal. Depois de diferentes usos ao longo de um século, o edifício passou a abrigar um cinema de rua dedicado à exibição de produções independentes, à formação de público e ao encontro entre realizadores e espectadores.
Para João Perdigão, um dos idealizadores do projeto, a transformação do imóvel simboliza a própria proposta do Cine Graciano. “Quando a gente começou a mexer aqui, as pessoas perguntavam se estava abrindo uma igreja. É curioso porque normalmente os cinemas viram igrejas. Aqui aconteceu o contrário: uma antiga loja virou cinema.”
A escolha da Lagoinha também faz parte dessa construção. Um dos bairros mais antigos da capital, o território reúne importantes manifestações culturais e uma intensa vida comunitária. É nesse contexto que o Cine Graciano busca fortalecer o acesso ao cinema e criar um espaço onde diferentes públicos possam se encontrar.
Desde a inauguração, o cinema realizou mais de 90 sessões gratuitas, exibiu mais de 162 filmes e promoveu 41 rodas de conversas. A programação reúne obras que raramente chegam ao circuito comercial e aborda temas como direitos humanos, cultura popular, questões ambientais, arte urbana, movimentos sociais, luta antimanicomial e as experiências de mulheres, pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIAPN+ e pessoas em situação de rua.
Portas abertas e sessões que não terminam quando os créditos sobem
“Aqui é uma cultura diferente da dos cinemas de shopping. As pessoas assistem ao filme, ficam para conversar, encontram os realizadores e debatem os assuntos que o filme provoca. O cinema também é esse lugar de troca.”
A proposta também aparece na forma como o público é recebido. Não há bilheteria nem retirada de ingressos. Quem chega encontra a porta aberta. “A pessoa pergunta: ‘O que é isso aqui?’. A gente responde: ‘É um cinema’. ‘E o que eu preciso fazer?’. ‘É só entrar’.”
Essa forma de receber as pessoas faz parte da identidade do Cine Graciano, especialmente por estar inserido em um bairro marcado por diferentes formas de viver a cidade. Uma das sessões que melhor representa essa relação aconteceu durante a exibição do documentário Entre a Lei e a Rua, realizado pelo estudante de jornalismo Guilherme. Antes da exibição, o diretor percorreu a região convidando as pessoas retratadas no filme para assistirem à própria história na tela. “No dia da sessão, os mesmos cachorros que apareciam no documentário estavam dentro do cinema acompanhando seus tutores. É uma imagem que dificilmente acontece em outro lugar. Ela mostra que esse é um cinema vivo.”
Criada em 2010, a Associação Filme de Rua nasceu de rodas de conversa com jovens que tinham as ruas de Belo Horizonte como espaço de moradia e convivência. Ao longo dos anos, consolidou uma trajetória voltada à produção colaborativa de filmes e à democratização do acesso ao audiovisual. Em 2019, inaugurou sua primeira sala de cinema, que permaneceu em funcionamento até 2023. O Cine Graciano representa a continuidade dessa história.
Nos primeiros meses de funcionamento, a sala contou com recursos provenientes de uma emenda parlamentar da deputada estadual Bella Gonçalves, que garantiu a implantação do projeto e sua programação até julho de 2026. Agora, com o encerramento desse financiamento, o funcionamento do espaço passa a depender do apoio coletivo.
Os recursos arrecadados pela campanha serão destinados ao pagamento do aluguel e das despesas fixas da sala, à manutenção do espaço, à realização da programação gratuita e ao apoio das equipes responsáveis pela curadoria, produção, comunicação e administração. A meta é garantir pelo menos mais seis meses de atividades.
Para João, o financiamento coletivo não representa apenas uma forma de arrecadar recursos, é uma maneira de compartilhar a responsabilidade pela existência do espaço.
“O financiamento coletivo não é para fazer grandes expansões. É para manter uma remuneração mínima de quem trabalha aqui, manter a sala funcionando e continuar oferecendo esse espaço para que os filmes circulem e as pessoas se encontrem.”
A campanha convida o público a preservar um espaço de encontro construído coletivamente, onde o cinema continua sendo uma experiência compartilhada.
Serviço
Campanha de financiamento coletivo – Cine Graciano
Como apoiar: contribuições de qualquer valor pela plataforma da campanha: https://benfeitoria.com/projeto/apoieocinegraciano


