Canetas emagrecedoras têm relação com a fisiologia
Queda de cabelo e mau hálito podem aparecer ao longo do tratamento, mas acompanhamento médico e nutricional ajuda a preservar a saúde e a qualidade de vida*
A expansão do uso de canetas emagrecedoras trouxe novas possibilidades para o tratamento da obesidade, mas também levantou dúvidas sobre os efeitos da perda de peso no organismo. Entre as questões mais frequentes estão a queda de cabelo e o mau hálito, alterações que podem ocorrer durante o processo de emagrecimento e que nem sempre representam uma reação direta ao medicamento, Entretanto, a resposta depende das características de cada paciente, do ritmo de perda de peso e dos cuidados adotados ao longo do tratamento.
O cenário ajuda a explicar o interesse crescente por essas terapias. Um estudo publicado em 2024 na revista científica Diabetes, Obesity and Metabolism, que analisou dados de quatro ensaios clínicos sobre semaglutida, um dos compostos das famosas canetas emagrecedoras, e identificou melhora na qualidade de vida relacionada ao peso e na capacidade de realizar atividades físicas entre os participantes tratados com o medicamento. Nesse contexto, a atuação dos fármacos, que levam a redução do peso, pode contribuir para melhorar a saúde e a disposição, especialmente quando faz parte de uma estratégia de tratamento individualizada.
“A queda de cabelo pode estar associada ao emagrecimento acelerado e à redução da ingestão de nutrientes importantes para o organismo. Em alguns casos, a perda de peso desencadeia o eflúvio telógeno, condição temporária em que uma quantidade maior de fios entra na fase de queda. A ingestão insuficiente de proteínas, ferro e outros nutrientes pode contribuir para o quadro. Por isso, a alimentação precisa acompanhar as mudanças no peso, com atenção à qualidade nutricional das refeições e à manutenção da massa muscular. O objetivo não deve ser apenas perder peso, mas fazer isso de maneira que preserve a saúde. Cada organismo responde de uma forma, e a avaliação individual permite identificar necessidades nutricionais e orientar os cuidados durante o processo”, afirma o médico Mauro Lúcio Jácome, especialista em endoscopia digestiva, gastroenterologia e cirurgia geral.
O mau hálito também pode aparecer durante o tratamento, mas suas causas variam. “Mudanças na alimentação, redução da ingestão de água e consequente ressecamento da boca podem favorecer o problema. Náuseas e refluxo gastroesofágico, que podem ocorrer com medicamentos dessa classe, também merecem atenção. Em determinadas situações, a mudança no padrão alimentar, incluindo períodos prolongados sem comer ou dietas muito restritivas, pode contribuir para alterações no hálito. A persistência do sintoma, porém, exige avaliação para investigar outras possíveis causas, inclusive problemas bucais e digestivos”, completa Dr. Mauro.
Para reduzir a possibilidade desses desconfortos, o acompanhamento médico e nutricional deve fazer parte do tratamento desde o início. Manter uma alimentação equilibrada, consumir proteínas e micronutrientes em quantidades adequadas, beber água regularmente e evitar restrições alimentares sem orientação são medidas importantes. Caso a queda de cabelo seja intensa ou prolongada, ou o mau hálito persista, a recomendação é procurar avaliação profissional. Ajustes na alimentação e a investigação de eventuais deficiências nutricionais podem ajudar a identificar a origem dos sintomas e definir a conduta mais adequada.
“Quando a perda de peso melhora a mobilidade, a disposição e o controle de problemas associados à obesidade, o impacto na qualidade de vida pode ser significativo. O acompanhamento serve justamente para que os resultados sejam alcançados com segurança, respeitando as particularidades de cada pessoa”, diz o médico. A proposta, portanto, é considerar o emagrecimento como parte de um cuidado mais amplo, no qual os benefícios para a saúde caminham junto com a atenção à alimentação, ao bem-estar e à resposta individual ao tratamento.


