Se o metabolismo mudou, o tratamento também pode mudar
Adaptação do organismo pode alterar a resposta ao tratamento, tornando o acompanhamento médico fundamental para ajustar a estratégia
A perda de peso não ocorre necessariamente no mesmo ritmo durante todo o tratamento. Depois de uma resposta inicial, o organismo pode se adaptar às mudanças provocadas pela redução de peso e pela nova rotina alimentar, fazendo com que a evolução desacelere. O chamado platô é uma das situações que exigem reavaliação da estratégia adotada.
Essa questão ganha importância diante do avanço da obesidade no país. Segundo o Vigitel 2024, do Ministério da Saúde, a proporção de adultos com obesidade nas capitais brasileiras e no Distrito Federal passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. O índice mais que dobrou em menos de duas décadas, ampliando a necessidade de estratégias de tratamento que considerem as diferentes respostas do organismo.
“A possibilidade de adaptar o tratamento ao longo do tempo ganha relevância. É essa a proposta do balão intragástrico ajustável, que permite modificar o volume do dispositivo durante o período de permanência no estômago. A característica possibilita que a estratégia seja revista de acordo com a resposta apresentada pelo paciente”, disserta o médico Mauro Lúcio Jácome, especialista em endoscopia digestiva, gastroenterologia e cirurgia geral
Um estudo clínico randomizado publicado no The Lancet, com 288 pessoas com obesidade, mostrou a frequência desses ajustes. Entre os pacientes que receberam o balão ajustável, 80% passaram por alguma alteração no volume durante o acompanhamento, principalmente em razão de platô na perda de peso ou de intolerância ao dispositivo. Entre aqueles que tiveram o volume aumentado, o procedimento esteve associado a uma perda adicional média equivalente a 5,2% do peso corporal.
“É muito curioso isso. Porque a possibilidade de ajuste permite que o tratamento acompanhe as mudanças observadas durante o processo. Se a percepção de saciedade diminuir ao longo dos meses, o médico pode avaliar um ajuste no volume do balão para retomar o estímulo. Da mesma forma, diante de desconforto, o volume pode ser reduzido até que o organismo se adapte”, afirma o médico.
A lógica é substituir uma abordagem estática por uma estratégia que possa ser modificada conforme a evolução do paciente. “O tratamento não é rígido. Ele evolui conforme as necessidades do metabolismo. A permanência do balão ajustável por até 12 meses também amplia o período de acompanhamento e de consolidação das mudanças de hábitos. Nesse intervalo, a avaliação médica pode considerar a evolução do peso, a percepção de saciedade, a tolerância ao dispositivo e a necessidade de novos ajustes”, completa Dr. Mauro.
A mudança na resposta do organismo, portanto, não significa necessariamente que o tratamento deixou de funcionar. Pode significar que chegou o momento de adaptar a estratégia. “Independentemente do tratamento escolhido, o mais importante é que o paciente não tome decisões sozinho. Cada organismo responde de uma maneira e, ao longo do tempo, essa resposta pode mudar. Por isso, ouça o seu médico, mantenha o acompanhamento e não desmotive ao longo do processo. É essa avaliação que permite entender o que está acontecendo e definir, com segurança, se é preciso manter ou ajustar a estratégia”, finaliza Dr. Mauro.


