Uberlândia recebe 3º Fórum Nacional Uma Só Saúde com debate sobre raiva, leishmaniose e direito ao tratamento
Evento será realizado nos dias 19 e 20 de setembro, na UNIUBE, e reunirá médicos-veterinários, especialistas, autoridades e instituições para discutir ciência, políticas públicas e os desafios das zoonoses
Uberlândia, no Triângulo Mineiro, recebe nos dias 19 e 20 de setembro o 3º Fórum Nacional Uma Só Saúde – Simpósio Transacional de Raiva e Leishmaniose: Direito ao Tratamento. Promovido pela Associação Brasileira de Saúde e Causa Animal (ABRAESCA), em parceria com instituições e entidades profissionais, o encontro será realizado na UNIUBE e reunirá médicos-veterinários, especialistas, pesquisadores, autoridades e representantes de diferentes setores para discutir os desafios relacionados a duas importantes zoonoses.
A proposta do evento parte do conceito de Uma Só Saúde, que reconhece a interdependência entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente. Na prática, isso significa compreender que o enfrentamento das zoonoses depende da integração entre diagnóstico, vigilância epidemiológica, prevenção, tratamento e políticas públicas.
Cenário epidemiológico reforça importância do debate em Minas Gerais
Os dados epidemiológicos demonstram que a leishmaniose e a raiva permanecem importantes desafios para a saúde pública em Minas Gerais, reforçando a necessidade de ampliar a integração entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente.
Em relação à leishmaniose em humanos, Minas Gerais registrou, em 2022, 194 casos confirmados de leishmaniose visceral, com 29 óbitos, além de 1.090 casos de leishmaniose tegumentar. Os números evidenciam a circulação das doenças no território mineiro e reforçam a necessidade de ampliar ações de vigilância, diagnóstico precoce, prevenção e acesso ao tratamento.
A raiva também exige atenção permanente. Dados da vigilância estadual mostram que, entre 2017 e 2021, foram registrados 659 casos de raiva em animais em Minas Gerais. Desse total, 457 ocorreram em bovinos, 64 em equinos, 130 em morcegos, quatro em gatos, um em cão, dois em ovinos e um em cervídeo. Em 2022, foram registrados 125 animais positivos no estado.
A circulação do vírus entre diferentes espécies tem reflexos diretos na saúde pública. Minas Gerais registrou quatro casos de raiva humana em 2022 e um em 2023, todos com evolução para óbito. O caso registrado em 2023 esteve relacionado à exposição a um bovino infectado.
Os dados reforçam uma questão central para o conceito de Uma Só Saúde: o que acontece entre animais e seres humanos está interligado. Por isso, a ausência de registros de casos em determinada região não deve ser interpretada automaticamente como ausência da doença. A falta de diagnóstico e de dados consolidados sobre a ocorrência em animais também pode ocultar a circulação das zoonoses.
No caso da leishmaniose, essa preocupação é especialmente relevante para o Triângulo Mineiro. A percepção de que determinados municípios não apresentam casos pode estar relacionada também à subnotificação ou à falta de diagnóstico, e não necessariamente à inexistência da doença. O conhecimento da casuística animal é fundamental para compreender a circulação do agente e orientar estratégias de saúde pública.
“Precisamos ter dados concretos sobre o que acontece nos animais para compreender o que está acontecendo com a saúde humana. Se não diagnosticamos, não conseguimos dimensionar o problema. O mosquito não reconhece limites municipais e, por isso, a vigilância precisa considerar o território de forma integrada”, afirma Tifanny Pinheiro Pires, médica-veterinária, dermatologista, fundadora e presidente da ABRAESCA.

Arya, cadela do tenista João Fonseca, é a mascote da ABRAESCA. O atleta e sua mãe, Roberta Fonseca, atuam como embaixadores da instituição, fortalecendo as iniciativas de conscientização e promoção da saúde animal.
Ciência, debate e políticas públicas
É justamente nessa conexão entre conhecimento científico e tomada de decisão que o evento estrutura suas atividades. O Simpósio Transacional é o espaço dedicado à atualização científica dos médicos-veterinários, com apresentação de evidências, diretrizes, protocolos e informações atuais sobre raiva e leishmaniose.
Já o Fórum Uma Só Saúde amplia essa discussão para o diálogo entre ciência, instituições, autoridades e sociedade. É o momento de colocar o conhecimento científico em debate com os responsáveis pela formulação e execução das políticas públicas, buscando caminhos para que as evidências se transformem em ações concretas.
Entre os destaques da programação estão as Diretrizes Brasileish 2025, com conteúdos sobre epidemiologia, diagnóstico, estadiamento e tratamento da leishmaniose; o novo Manual e Programa de Encoleiramento do Ministério da Saúde; debates sobre advocacia animalista e aspectos jurídicos na Medicina Veterinária; além da situação epidemiológica e do manejo da fauna urbana.
A discussão sobre a leishmaniose também busca ampliar o entendimento sobre as possibilidades de diagnóstico e tratamento dos animais positivos, contribuindo para que o diagnóstico não seja automaticamente associado à eutanásia como única alternativa. A proposta é fortalecer o acesso à informação, ao diagnóstico adequado e às estratégias previstas nas políticas públicas, incluindo a participação de municípios em programas de encoleiramento e o tratamento dos casos positivos, conforme os critérios e protocolos estabelecidos pelas autoridades de saúde.
No caso da raiva, a presença do vírus em morcegos, animais de produção e outras espécies demonstra a necessidade de vigilância contínua. A prevenção envolve vacinação de cães e gatos, monitoramento de animais silvestres e de produção, investigação de casos suspeitos e orientação da população.
Para a ABRAESCA, levar o evento a Uberlândia representa uma oportunidade de aproximar a atualização científica da realidade dos profissionais que atuam na região e, ao mesmo tempo, promover o diálogo entre aqueles que produzem conhecimento e as instituições responsáveis pelas políticas de saúde.
“Uma Só Saúde não é apenas um conceito. É uma forma de entender que o diagnóstico em um animal, a circulação de uma doença no ambiente e um caso em uma pessoa fazem parte de uma mesma realidade epidemiológica. Por isso precisamos de ciência, de dados e de diálogo entre as instituições para construir respostas efetivas”, destaca Tifanny.
Serviço
3º Fórum Nacional Uma Só Saúde – Simpósio Transacional de Raiva e Leishmaniose: Direito ao Tratamento
Data: 19 e 20 de setembro de 2026
Local: Auditório da UNIUBE – Campus Vila Gávea
Endereço: Av. Paulo Gracindo, 951 – Gávea – Uberlândia (MG)
Realização: ABRAESCA, OAB-MG e CRMV-MG
Informações e inscrições: simposiouberlandia.abraesca.com.br


